segunda-feira, 19 de março de 2007

Sobre trânsito e cachorros

Eu não tenho culhão! Não tenho mesmo! Nem física, nem simbolicamente. Uma vez uma pessoa me disse que pra viver em Sampa tem que ter. Quase todo dia redescubro que, enfim, eu não.
Semana passada foi destas mais difíceis que o normal. E essa tá indo no mesmo embalo. Chuva, trânsito e, não bastasse, a constatação de que as pessoas perderam qualquer senso de boa relação e respeito. O metrô nestes dias é o retrato da barbárie. Pessoas no mesmo barco (ok, mesmo trem), mortas de tanto trabalhar pelo lucro alheio, se batem e se ignoram com a mais esquisita normalidade. E sofrem, mas cada uma na sua.
Dia desses, sorri para um tiozinho que me olhava na saída do metrô, depois do estouro da boiada da Sé. Depois do estranhamento, ele me disse: "Você é de bem com a vida, né?". Mal sabe ele o quanto não, em certas horas. Mas um sorriso ainda me é possível. Quase sempre.

*

Em meio ao turbilhão, eis que me vem um sinal divino, em forma do número cinco. Explico. Pela manhã, na Rua Frei Caneca, me deparo, não pela primeira vez, com cinco podlezinhos, irritantes e fofos. Pergunto: "São todos seus?" E a madame loira me diz que sim, os cinco.
Bem mais tarde, caminho ao lado do trânsito da São João, quando um morador de rua, revoltadíssimo, briga com um camelô que estorvava seu cachorro. Um dos seus cinco. Cinco vira-latas bonitos e corajosos, andando em ritmo acelerado pela calçada e sempre esperando uns pelos outros. Arrisco: "São todos seus?" "É, sim, tudo meu", responde com gentileza apressada e segue.