quarta-feira, 22 de março de 2017

poemas de rua e quintal

Correria

Ao tentar
não perder nenhum minuto
perdeu todos
e ainda
ficou se devendo
alguns

Leveza

Escutar as folhas
como quem aprende
a dançar
com o vento
a equilibrar
ruído, palavra, silêncio

mas somos tão pesados

Paz

A paz é vermelha
da cor da pálpebra
vista de dentro
quando o sol de outono
refresca os corpos
do meu quintal.

Saberes profissionalizados

Não admiro os especialistas.
Desculpem, não posso.
Não admiro o cantor profissional
Não admiro o cientista profissional
Não admiro o ator profissional
Não admiro o profissional da fábrica de tecidos
Não admiro o cuidador profissional
Não admito o contador de histórias profissional
Não admiro o professor profissional

Admiro o cantar
o pesquisas
o agir
o tecer
o cuida
o contar
o aprender

Desculpem profissionais especialistas e o grande valor que vocês se dão
Mas é que o mundo
                               em geral
me toca tanto!


sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Caldinho de feijão

Tudo aconteceu por causa de um caldinho de feijão.

É. Foi a Alice que disse que ouviu o Seu Baltazar contar que o começo ao alvoroço foi, mesmo!, o feijão da Vera. Ou melhor, o feijão do Teobaldo. Melhor ainda, o feijão que o Teobaldo fez pra Vera. O Teobaldo trabalhava de noite e a Vera trabalhava de dia.
Eles davam seu jeito pra namorar no intervalo.

Num dia... Numa noite... num intervalo desses, o Teobaldo, que era bom de fogão, levou um caldinho quentinho pra Vera poder jantar.

A Vera trabalhava num baita predião e fácil é que não foi pro Teobaldo fazer o caldo chegar até ela, passando por tanta grade e tanta câmera sem esfriar.

O caldo era divino, mas a quantidade era demais pra Vera. Então ela pediu pro Lucio segurar as pontas e foi oferecer um pouco pro porteiro do predião do lado.

Muitas câmeras e grades depois, o caldo do Teobaldo foi tomado por todos os porteiros e porteiras dos prediões daquela rua.

Há quem diga que sobrou até pra congelar!

Há quem diga que a Vera fingiu que a receita era dela, só pra não fazer tanta propaganda do companheiro assim.

Há quem diga que o Seu João não tomou o caldo porque era um... cara alérgico a feijão.

E tem até o Dante, que garante que foi assim que começou a tal revolução de porteiros – aquela lenda que começa no incêndio e termina num churrasco?


Mas aí, é como sempre diz a Tereza, a história é tão antiga que ninguém mais tem certeza.

Multidão de pés na cabeça

Ela saiu de casa
e foi em direção
à árvore.

Era talvez o dia
mais frio do seu ano.
O tempo
mais frio da primavera.

No entanto, ela andou até a árvore, e a árvore, que tinha insônia,
contou a ela história milenares a noite toda.

Ela ouvia, sonâmbula atenta, enquanto seus dedos congelavam
e a sopa esfriava no fogão.

_ Você não é a única. Todas as mulheres antes e junto a você viveram o mistério de inventar-se.

Ouviu e ouviu histórias de invenções – Marias, Dandaras, Carolinas, Joanas, Silvias, Sônias, Sabrinas.

Amanheceu com os dedos quentes, deitada em uma cama quente feita de folhas.
Com os primeiros raios de Sol, voltou para casa acariciando as pétalas das flores que tinham nascido naquela noite na ponta de seus dedos.


A passos largos e lentos,
cheia de mulheres na cabeça,
sentia-se pisar a cidade
com uma multidão de pés.

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

poeminha de segunda 1

enquanto a paisagem desaba cinza
num fim de tarde que parece fim de tudo
trabalhamos
trabalhar escrevendo às vezes parece mais grave
todo trabalho é prostituto, sabemos
mas vender as palavras
parece ser algo
como oferecer a alma de brinde

de repente,
em meio à tempestade de palavras prostituídas
uma delas me lembra o azul claro que se mostra no intervalo
improvável entre o cinza mais dominante

desde então, descontraladamente
toda palavra sai poesia
e gráficos relatórios pareceres contratos e-mails cartazes publicações postagens comunicados memorandos
são explosivos
doces
inconformados
e inúteis

quinta-feira, 21 de julho de 2016

tempo nosso

qualquer pessoa que caminha por um corredor (para o) mal projetado do metrô poderia toma para si um saber feito dessa experiência: quando andamos juntos somos mais lentos. Vejamos, por exemplo, a multidão na transferência entre a paulista e a consolação - caminhamos feito pinguins. Agora, olhemos ainda mais de perto, no detalhe, aquela duas amigas que conversam, juntas por escolha, não por superlotação. De todos os lados, os passos delas são ultrapassados. E o lento ritmo comum entre elas se mantém, ileso. Há mais saberes, então, morando nessa experiência: quando andamos juntas por convicção e, firmes no ritmo comum, permitimos tranquilamente que nos ultrapasse a pressa dos sozinhos que correm em direção ao fim, o tempo é mais nosso. E pode até acontecer de sairmos ilesas.

fora da ordem

quando passa
desfilando
o vigilante
da linha amarela do metrô

eu me sinto como se tivesse algo a esconder.
que sinto como se os olhos dele procurassem algo que eu tivesse a esconder.
eu gostaria de ter algo a esconder.
eu gostaria, mesmo, de estar um pouco mais fora da ordem.

ele passa e só passa
nem desconfia

de repente, parece que o metrô, ele mesmo, e sua voz gravação é que esconde algo e está fora da ordem.

sexta-feira, 8 de julho de 2016

menos é pouco

O foda é que é difícil - ele disse. E o mundo riu. 

Mas é claro que não tem caminho antes do teu ato.
Mas é claro!
Mas então anda, caminha.
Tá valendo caminhar sem certezas, que a mochila cheia de certezas é pesadíssima.
Mas leva a coragem.
E não me vai esquecer de ir na direção do "ser mais". 
Porque menos é muito pouco.