domingo, 27 de dezembro de 2009

Anotações IV

Vestibular continua sendo um porre como era da primeira vez que eu prestei, com o agravante de que, depois de 5 anos distante das matérias "exatas", me parece ainda mais sem sentido exigir que eu decore, por exemplo, a fórmula química do vinagre.




De todo modo, tirando todas as questões assustadoramente mal-formuladas e a ineficácia desse tipo de avaliação, o vestibular me foi útil porque me obrigou a ler alguns livros e peças bem bacanas, por exemplo, a peça A Vida de Galileu Galilei, do Brecht, que é fodaça. Assim sendo, retomo a série Anotações com duas idéias tiradas do livro Ação Cultural, do Teixeira Coelho, que faz parte da infindável coleção Primeiros Passos - Editora Brasiliense.



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1. A primeira é sobre o que é arte/ cultura bem baseado numa idéia de "pra que serve" e, sobretudo, revelando a apropriação de ambas pela lógica do capital e do consumo.

"(...) Criar uma obra de arte, por exemplo, freqüentemente será um ato de cultura. Como tal, necessária. Já mostrar uma obra de arte, ao contrário do que pretendem acreditar mudeus e galerias (...) está longe de ser necessário, longe de ser sempre e em si um fato de cultura. Mostrar obras de arte tem, outra vez, mais a ver com comércio ou exibicionismo do que com cultura. Quem tem a arte em si, diz Kraus, não precisa do motivo exterior que é a exposição. Quem não a tem, só verá mesmo o motivo exterior. Ao primeiro, o artista importuna; ao segundo, ele se prostitui".

Sim, muito exagerado, o próprio autor assume e afirma que os exageros servem, ao menos, "para dizer que apenas mostrar obras de arte pode não servir para nada". Em seguida, ele vai mais direto ao seu ponto.

"Há ainda o caso desse primo-irmão da publicidade, o design. (...) O design sempre foi aquilo que continua sendo: um substituto para a arte e a cultura, que não precisa ser pensado, apenas comprado e estacionado num canto da sala ou num pedaço de rua. Duchamps fez com seus ready-made não apenas uma crítica da arte, mas uma crítica prévia e dilacerante ao design. muita gente fez que não percebeu. A diferença entre o design e a arte é toda aquela que existe entre o ter e o ser."



Quer saber mais? Compre o livro ou empreste numa biblioteca - é curtinho e didático - até demais. Ou dá um pulo na Tok&Stok.

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2. O debate surrado sobre democratização da cultura e o que isso pode realmente significar - em termos pragmáticos e utópicos.

"(...) Uma das coisas que mais se ouvem nesse país é "democratização da cultura". A expressão, na maioria esmagadora das vezes, não tem qualquer sentido substantivo, é mera figura de retórica. Há duas coisas que não se sabe quando se recorre a elas: 1. o que vai ser democratizado; 2. o que é democratizar."

Isso é só uma introdução agressiva. Vamos à parte pragmática:

"No tipo de organização social que temos, a dinâmica cultural pode ser entendida e descrita nos termos do modelo de todo sistema de produção do qual o sistema de produção cultural é variante. Esse sistema apresenta as quatro clássicas fases: 1. a produção propriamente dita do bem cultural; 2. sua distribuição aos ponto onde pode vir a entrar em contato com seu eventual destinatário; 3. a troca do bem (em nosso regime sua troca por dinheiro), que o coloca em contato direto com seu virtual usuário (adquirente ou consumidor); 4. a fase última, a do consumo ou do efetivo desse bem."

E, enfim, a parte "utópica" - porque, por enquanto, sem lugar, ou, pelos menos, muito rara:

"(...) Não se trata de pregar a eliminação do artista profissional e do produto cultural feito por uns e oferecido ao uso ou consumo dos outros. Trata-se de criar o maior número possível de oportunidade para que o maior número possível de interessados conheça a parte essencial da aventura cultural que é a criação, distante anos-luz da experiência passiva da contemplação, da recepção. E fazê-lo não insistindo tanto no produto em si, na necessidade de se chegar a um produto final acabado e delimitado, como aquele que fazem os "profissionais", mas no processo de produção em si (...)"

(Os itálicos são do autor, os negritos, meus.)

Quer saber mais? Você pode ler outros livros do moço (ai, que bondade a minha, ele nasceu em 1944) da mesma coleção: O que é Industria Cultural e O que é Utopia.

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O melhor de tudo depois de ler um livro tão direto e que marca posição firmemente, é ler a nota final da editora:

"Caro leitor:
As opiniões expressas nesse liro dão as do autor, podem não ser as suas. Caso você ache que vale a pena escrever outro livro sobre o mesmo tema, nós estamos dispostos a estudar sua publicação com o mesmo título como "segunda visão"."

Não deve funcionar, mas é uma proposta legal. Fiquei pensando em o que a Brasiliense faria se recebesse uns 1000 manuscritos coerentes sobre o mesmo tema e logo pensei no título: "O que é Fluxo de Capitais - milésima visão".