segunda-feira, 2 de março de 2009

Eu e meu Mercedes

Noite alta, dois rapazes arrasam pelo centro. Um dirige o Mercedes, o outro vai cantarolando, batendo uma papinho aqui, outro ali, de olho no telefone celular, de olho pro lado de fora da janela, procurando carne fresca.

Num horário em que praticamente só entra gente com bilhete único, não há nada a temer, e há tempo de sobra pra lançar olhares pra todas as direções. Opa. Todas, não. Velhinha ele não suporta. A gentileza toda se esvai, a cantoria pára e o moço só volta a jogar o sorriso pra fora, quando as velhinhas atletas descem pela porta da frente.

Carona mesmo ele escolhe pra quem dar. Pode ser gordinha ou magrinha, pode estar trabalhando ou "de folga hoje?", pode ser mulata ou morena, mas loira ele dispensa. Se ela estender a mão, ele finge que não vê. O companheiro no volante, anos de convivência nesta azaração noturna, sabe bem que se a loira correr atrás do Mercedão, o negócio é acelerar, mesmo que tenha que ignorar alguns pontos.

"Alô? Oh, meu amor. Mas você já tá aí? Tô aqui na Sé. Agüenta um pouquinho que em quinze minutos já estamos passando por aí."

Conversa mole pelo celular, conversa mole ao vivo. "Qual o número desse carro mesmo?" "..." "Ah, pensei que fosse meia nove".

"Essa provoca", comenta, assim que a mulata desce sacudindo o quase desaparecido vestidinho rouxo - na moda. "Mas não compensa não rapaz... o cara diz que pegou uma, foi lá uma vez só (faz lá na frente o famigerado gesto do ganso sendo afogado) e aí era um tal dela ligar: ai, você não gosta mais de mim, não quer mais sair comigo... O jeito era dizer que o horário não batia... mas não é fácil escapar"

Se nao é fácil escapar das moças que tomam generosas caronas de Mercedes todas as noites, é praticamente imposível fugir de um "boa noite, linda" ou "faz mais uma viagem com a gente, tá cedo", sempre acompanhado daquele olhar de Antonio Banderas depois de lutar no conflito na Faixa de Gaza - no lado palestino, claro.

Coisas de São Paulo à noite. Coisa de gente.