terça-feira, 20 de março de 2012

Da memória dos lugares

Lugares guardam memórias por muito tempo, nos seus contornos, nos seus cantos, nos seus cheiros, nos seus mofos. Às vezes, porém, guardam memórias curtas, substituídas por outras ao longo do caminhar. Outras vezes, ainda, a memória de um lugar se apaga devagar até terminar por completo, como se nosso corpo dissesse: "melhor deixar isso do coração pra fora".


Lúcia vivia numa casa de cercas brancas. Vê-se pelas fotos de criança barrigudinha. Na casa de cercas brancas apaixonou-se pela primeira vez. Na casa de cercas brancas, viu seu pai ser levado por militares para nunca mais voltar. E esqueceu-se do primeiro beijo. Depois lembrou-se. Depois esqueceu-se. Se passasse hoje pela cerca branca, Lúcia veria somente uma cerca branca. Talvez a achasse bonita.

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