segunda-feira, 13 de julho de 2015

Achados de outro feriado, perdidos no caderno

Feriado 

É feriado.
Trabalhamos.
A voz do metRô é a mesma de qualquer segunda-feira.
A moça brasileira e o tradutor inglês
não engasgam, nem bocejam.
Até os passarinhos brincam nas árvores
como em qualquer segunda-feira.

É feriado.
Caminhamos.
Pernas de ferro nos levam
rápido
pra longe de nós.
Mais rápido
pra mais longe.

Uns vamos à praia.
Outros limpamos banheiros.
Alguns encontramos segundos de vida viva.
Farejamos...


***

Faria Lima

A caminho do nada
a moça se arruma.
No espelhinho,
os cílios vão ficando pretos.
Os cabelos,
que nasceram pretos,
são agora loiros.

Tudo moldado
pelo nada.
para o nada.

A moça se arruma,
o mundo se arruma - no molde.

O sinal toca
pra fechar o espelhinho.
O destino chegou
e os cílios pretos de cabelos loiros têm pressa em direção ao destino.

O nada é a Faria Lima

terça-feira, 10 de março de 2015

Guilhermina 10.03

terror de hoje

Uma pessoa com uma caixa de papelão
É uma pessoa com uma caixa de papelão
Uma pessoa com uma caixa de papelão sou eu.
Sou eu mais uma caixa de papelão.
E sou eu menos um guarda-chuva.
Eu menos uma mochila, um celular, um pacote de biscoitos, um texto do Borges sobre o poder da palavra, uma escova de dentes, um holerite, uma casa esperando com a luz do quintal acesa.
Uma pessoa com uma caixa de papelão
É meu terror de hoje.

- do luminoso vermelho da igreja,
Chaplin me recomenda o sorriso e as lágrimas
contra o ódio e o terror.
Eu sorrio de volta. E garoô.
Como a cidade.
Tomo a cidade.


***

547

Do meio do vazio, o gato me olha
Do meio da terra, restos de tudo, ele olha
Não é pra mim que ele olha,
Mas pra casa que estava ali ontem. E antes de antes de ontem.

Das frestas das grades do portãozinho que restou
Que ainda leva, inútil, o número 547 preso aos restos de tijolos,
O gato olha.
E os olhos do gato miram memória.
_ Como deve ser triste ser dono de uma demolidora.

E ainda coloca-se placas disso.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

o mínimo

que pouco valem as palavras
quando a memória evoca o impossível
quando o que era não tinha nome e o que é não responde pelo nome de futuro

que pouco valem as palavras
quando as bombas explodem lágrimas
quando as ruas explodem festa e a festa de fora não arromba minha porta

que pouco valem as palavras
quando meu corpo e o outro não se tocam
quando, tocando-se, não se tocam
        sonhando-se, não se tocam
        chamando-se, não.

que pouco valem as palavras
sussuros escuros nos respingos de calhas furadas
na chuva breve de verão em terra de rio soterrado

que pouco valem as palavras
- no entanto, somos isso -
é o que tem pra ser.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Encantamento

Encantamento.
Como tirar o cimento?
terra?, catraca?, encanamento?
que controlam o fluxo
impedem os pensares
isolam os encantos
dos lados de lá do agora

Ar.

Como, como levantar as narinas
por entre as grades dos bueiros que nos contêm
e ser, finalmente, mato
dos que dão flores bonitas
nos cantos e nas brechas?

Inescapavelmente

Até queria ser mais você.
Era bonito.
Mas sou inescapavelmente eu.
E não é que não me escape!
Escapo. Transbordo. Desapareço.

Mas o ritmo do meu bater de asas,
tem uns dias,
é demais pra sua calma
pras nossas casas,
pro vagão lotado do metrô de manhã cedo.

Então madrugo.
E minha vontade de vida madruga comigo.
É lágrima minha vontade de vida. É vida.
Você
dorme.
Enquanto a madrugada me lambe, depois me leva.

Tempos-rio

Se a gente quebrasse o relógio
Se a gente comprasse um relógio
Se a gente inventasse um relógio.

Se a gente tivesse tempo
se criasse tempo
coubesse no tempo

Se esse tal de tempo fosse
mais rio
que poeira.

Desencaixe

Desencaixe.

De vida toda.
De tempo e de inteireza.
Toda.
Não cabe
e não poderia caber, né?
Não adianta sentar na mala
amassar o coleguinha no metrô
pedir licença pra emprestar um coração novo
não cabe.

Desencaixe.

Um dia consegue encaixar.
Os saltos altos.
Mas logo entorta.

Um dia consegue desertar.
Os pés descalços.
Mas logo retorna.

Um dia brincar com o tempo.
Amplia a vida.
Mas logo pede desculpa ao relógio e troca o pulso.

Um dia sonha até!
Navega.
Mas não quebra o despertador às 5 da manhã.

Um dia quebra um vidro.
Indigna.
Mas logo bota grade na janela da casa.

Um dia revida a cantada
Oferece a mesma face, virada
No outro, anestesia. Até ri da piada.