terça-feira, 25 de março de 2014

...no curso do rio...

amor é tempo

é o ponteiro do relógio
rodando em falso

é o ônibus errado
trocado por outro e outro
até o instinto e os pés
acharem o caminho
do teu caminho...

é o cabelo ganhando brancura, a boca ganhando ruga

é o sol nascendo pra nos botar pra dormir

é a paisagem passando lenta na janela

é a vida de um correndo de mãos dados com a do outro

é  um longo sonho nos primeiros minutos do cochilo

é um sorriso breve que vira escultura no lembrar

é um abraço que dura quilômetros...

sexta-feira, 7 de março de 2014

Dos nós

piro

ele tem olhos de horizonte

olhinhos de ver lá na frente
depois da nuvem
depois da fachada
depois da marcha
depois de domingo

quando ele empunha aqueles olhos
motores param
óculos embaçam
cercas derretem
pulmões explodem...

... num suspiro.


***

troca de pele

olho horas pros seus olhos
            - e eles são tantos.

suas pernas
- uma multidão de pernas
que caminham enfileiradas sob apitos,
cabeças baixas, punhos erguidos.
carregando toneladas de dúvidas.

movem-se de costas
ameaçam correr
desejam chegar lá
antes do tempo.

seu peito
ao lado de outro e mais outro
intercala risos e lágrimas
queima violentamente as pontas dos pelos

sua pele
colada na vida como pétala
finge acreditar
que não mais acreditará
trabalha pra não gostar
do arrepio do já conhecido
- gasto, amado -
rito.

sua nova pele
- dolorida -
despreza o antes
chora o agora
acredita de novo
ama de novo
arrepia
e sua
- o sal de ontem diluído na água da nova fonte
de onde você flui.


***


junta tudo
eu olho sua silhueta
contra a multidão desfocada
de Carnaval e metrô
de batucada e ruído de trânsito

   - e vejo casa -

   eu quero ver rua
  - mas vejo casa -

  eu quero ver agora
  - mas vejo sempre -

  eu quero ver enxame
  - mas vejo casulo -

  eu quero ver cipó
  - mas vejo laço -

  eu quero ver desafio
  - mas vejo abrigo -

QUAL A PALAVRA-CORPO QUE PODE JUNTAR
casa com rua
agora com sempre
enxame com casulo
cipó com laço
desafio com abrigo
eu-com-você, você-com-você, você-comigo?


domingo, 2 de fevereiro de 2014

trabalho de ser em movimento

a gente se faz
em relação.
em conflito,
em dor.
em alegria, tesão, raiva, amor,

a gente se faz.
e refaz.
todo o tempo.
movimento.

e se frustra.
e cara na parede.
e se mente, se engana, se perde, se encanta.

mastiga o eu dos ontens - as lágrimas, gozos, sonhos, medos de ontem
pra alimentar os eus dos amanhãs - as lágrimas, gozos, sonhos, medos de amanhã.

sonha os eus de hoje pra despertar os eus de hoje mesmo.

é repetitivo e penoso o trabalho de ser. trabalho que é.
e também surpreendente e fabuloso. movimento que é.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

te remo

ei, você,
que passou a morar em mim
bem enquanto eu morava no movimento...
EU TE AUTORIZO

a mover-se
a amar
a correr
a não pedir autorização
a mudar
a fluir

ainda que o impulso
seja o correr das minhas lágrimas

eu te remo
cachoeira abaixo
e sorrio pro meu próprio medo,
que ficou molhado
junto com o seu cabelo.

eu somos

Viver cada encontro
como se fosse uma brincadeira
em que, ao inventar uma história,

- um contexto
um desejo
um sonho
um começo
um nome -

inventa-se um eu.
Eu sou quem somos.

curtos

fico me procurando

- e me espanto! -

como eu me escondo bem!


***


se eu estivesse em mim
talvez
a gente fosse
um amor de vida inteira.

salto falho

tem um buraco
no meio do meu estômago

ele separa o que eu sinto do que eu penso.


às vezes,
eu jogo nesse buraco tudo aquilo com que eu não sei lidar,
depois passo,
correndo,
fingindo que o buraco nem existe.


outras vezes
acontece que eu salto mal
ou tenho preguiça de saltar.
aí escorrego lá pra dentro
e fico horas procurando um caminho pra sair.
é como um sufocamento
só que calmo.