paulista
eu caminho pela cidade
pisando leve
a qualquer momento
posso tropeçar ou pisar
numa memória
nossa.
Uma visão limitada e em pequenas partes. Só do que eu quiser.
eu caminho pela cidade
pisando leve
a qualquer momento
posso tropeçar ou pisar
numa memória
nossa.
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Juli =)
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as luzinhas de Natal da frente da sua casa têm pressa.
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Juli =)
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20:21:00
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a ser
Se eu explodisse
E esse vazio barulhento de dentro
Virasse labareda sem controle
Queimaria
preguiça, mentira, frescura
mesquinhez e bom comportamento
Queimaria
piscina de mansão, fazenda de escravidão
culpados, covardes, cansados
Queimaria limites
E, cheia dos cacos que sobrassem,
a realidade seria, de novo, uma só
indescritível. a ser.
***
Tatuagem
Ele tinha uma cicatriz
se confundia com a costela
era porta de entrada do pulmão
como se o ar pudesse entrar nele por ela
Ele tinha uma cicatriz
e dela não dava pra ver começo nem fim
Dali do meio do tronco
ramificava nele todo - musgo
Ele tinha uma cicatriz
em vez de roupa, comida, sonho, dentes
Um desenho quase bonito-de-feio
Tatuagem de misérias
Ele tinha uma cicatriz
que se mostrava mais que os olhos,
mais que a roupa rasgado e o descalço dos pés,
mais que sua humanidade até.
Ele era a cicatriz
movendo-se entre carros sem ninguém dentro.
***
Queria escrever uma palavra
violente e acolhedora
como o calor
Queria arrancar seus olhos, os pulmões e as pernas
pra você entender direito o que é ser livre
Queria filmar dentro de você
- uma câmera documental -
pra achar onde é o espaço do outro
Queria transplantar as lágrimas todas
trocar as de uns com as de outros
pra só sobrarem as banais.
Porque os motivos de existência das lágrimas justas
virariam chuva
ácida
derretendo-nos todos
a partir da geolocalização
das nossas injustiças acumuladas
Eu queria escrever uma palavra de revolta
mas esses dias só tem saído água da ponta da caneta azul.
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Juli =)
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[São Paulo - Rio de Janeiro]
JANELA
Uma viagem (de ônibus)
Pra trocar de olhos (de vagar)
Um assovio (sem ritmo)
Pra levar a razão pra passear (sem destino)
Eu queria te levar comigo
Mas você só cabe dentro
***
_ Eu gosto de viajar de ônibus por causa dessa sensação das coisas passando, do mundo se movendo...
_ A gente parado e as coisas se movendo...
Que nem quando a vida para de caber na gente e a gente para e ficar olhando pra ela.
primeiro, como quem diz "nem vem",
depois oferecendo um cafezinho, mas já avisando que passar a noite não vai dar porque os neurônios já estão todos ocupados,
depois deixando montar a barraca no quintal - e se precisa de água limpa...
até enfim oferecer travesseiro e cafuné de boa noite.
E, de repente, voltar a se mover junto com a vida, no sono, no sonho.
INSISTÊNCIA
O negócio, meu filho,
é olhar a nuvem da tempestade de logo-mais
e perguntar
"amanhã vai ter Sol?"
***
O caminho da vocação pra ser mais
deve ter algo a ver
com os olhos que procuram
no céu coberto de nuvem de chuva
a única brechinha de Sol,
antes de ele ir embora cochilar
ali do outro lado da cama,
quer dizer, da Terra.
Insistir em ver o Sol - nem que seja revelado pelo azul atrás da nuvem cinza.
FUNDA - um verbo adjetivo
A dor é com a gente
não é com o outro
é só com a gente
A dor funda - de profunda -
funda - de fundar -
pedaços de eu
e joga no mundo
pra ver se brotam
Fundar
- de manifestar o inédito, parente de inventar -
pedaços da gente mesmo
pode equivaler a encontrar
jeitos novos de estar no mundo
que é também um jeito de nascer
Buscar no fundo da gente
A gente mesmo, só que inédito.
ESPELHO DO POSTO
Se desse pra ser uma coisa só
eu não queria.
Ia achar chato.
Mas também ser tanta coisa ao mesmo tempo
tem hora que é complicado
Todo prazer e toda a dor
brigando pelo mesmo poema
como se pudesse caber num só verso - e numa só pessoa -
num único corpo-palavra
amar e partir.
um construir destruindo-se
um sonho-tombo
que culmina em olhar no espelho
e reconhecer-se um monte de gente.
NUVEM
Eu me movo na direção de mim
E às vezes me vejo
EXATAMENTE NO MEIO
entre a tempestade anunciada e garantida
e o horizonte zul dos ultimíssimos raios de Sol
Me inclino e forço os olhos
pra ver se o teu rosto
tá desenhado no escuro de trás
ou no claro dos próximos quilômetros
E ele está em um e no outro
Atrás, é compacto
Pra ali na frente diluir-se em muitos
deixando ver o fundo azul.
Teu rosto é nuvem
E toma tanta forma quanto meu amor.
UM ATO
Um ato
Cheio de som
Barulhento e mal-comportado
Contagiante e insuportável
Um ato
Cheio de amor
Violento e mal-intencionado
Sufocante e incontrolável
Um ato
Cheio de ar
Inflamado
Que derruba árvores e mansões
E assovia.
Um ato
Cheio de vinho
Bêbbado
Que quebra rolha e rolhas e garrafas
E vaza.
...
Um ato
Que inverte o caminho da vida
Quando inverte o jeito de caminhar
...
[Rio de Janeiro - São Paulo]
INCENDIÁRIA
Uma vontade de chorar
até faltar ar e água
Uma vontade de saltar daqui
E correr pela grama
até bater a cara no muro do horizonte
Uma vontade de ir me esvaziando, esvaziando, esvaziando
até virar as pessoas e as palavras e as coisas em volta
Uma vontade de te abraçar
tão forte e por tanto tempo
violentamente
mas sem absolutamente nenhuma pressa
até que o nosso suor vire cola
e depois vire água de mar
e depois orvalho
e depois memória
Uma esperança de que esse calorzinho no peito
incendeie
fogo de verdade, labareda
até queimar as caixinhas todas
e nada mais caber nelas
nem meu medo
[dos incêndios, dos terremotos e das novas construções]
[São Paulo - Americana]
UM POUCO
Se a gente se faz
De tudo um pouco...
um pouco de fuga um pouco de mundo
um pouco de memória um pouco de vento-na-cara
um pouco do outro um pouco do encontro
um pouco do fora um pouco do entre
um pouco do meio-sorriso um pouco do grito
um pouco do faro um pouco do sufoco
um pouco do correr-como-se-fosse-o-último-trem um pouco do esperar-deitado-na-grama-até-que-não-aconteça-nada-por-muito-muito-tempo
um pouco do desejar que tudo suma um pouco do desejar que alguém apareça
um pouco mudar
e muito mudar.
[Bônus de um quintal em Santa Teresa]
FIO DA MEADA
Estar conectado
ao que me inventa a alma
e só
e tanto.
por qual fio?
***
É possível ser o Sol de si?
O que é que vai brotar
do encontro de tanta água dos olhos
com a terra fofa dos próximos caminhos?
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Juli =)
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Sair.
Fugir.
Explodir as correntes.
Desconsiderar, sem peso,
as obrigações.
Negar
a ilusão,
as ilusões todas.
Inclusive a da presença.
Morar
no lugar
da vontade,
do estar
pleno.
Fazer
virar vida em si
os pedaços potentes
que esparramamos
nos intervalos
De que são feitos os encontros em que NADA acontece?
Trata-se da mesma matéria - só que invertida - de que são feitos os encontros que nos movimentam?
E se disséssemos não
A tudo o que, de fato,
não nos convoca a presença viva?
A franqueza de deixar-se ir
Pode ser o único caminho digno
De estar no mundo
Abandonar
o banal
que está
em nome
do que
pode ser.
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Juli =)
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