domingo, 22 de setembro de 2013

E se disséssemos não?

Sair.
Fugir.
Explodir as correntes.
Desconsiderar, sem peso,
as obrigações.

Negar
a ilusão,
as ilusões todas.
Inclusive a da presença.

Morar
no lugar
da vontade,
do estar
pleno.

Fazer
virar vida em si
os pedaços potentes
que esparramamos
nos intervalos

De que são feitos os encontros em que NADA acontece?
Trata-se da mesma matéria - só que invertida - de que são feitos os encontros que nos movimentam?

E se disséssemos não
A tudo o que, de fato,
não nos convoca a presença viva?

A franqueza de deixar-se ir
Pode ser o único caminho digno
De estar no mundo

Abandonar
o banal
que está
em nome
do que
pode ser.

sábado, 14 de setembro de 2013

Itaquerão

Tem um monstro
do lado do trem.

Feito de substância tóxica
Trabalho indigno
Transporte lotado
Arroz, feijão
Declaração de amor romântico
e lixo.

Tem um monstro
do lado da pista.

Feito pra festa de gala
Fogos de artifício
Banheira de hidromassagem
Coro de pobre, fome de criança
Tijolo de barraco esmagado
e luxo.

Tem um monstro
do lado do trem

Do tamanho do vazio
De 12 a 14 milhões de corpos
Desumanizados
Empilhados
sobre o gramado impecável.
Imenso.

segunda-feira, 1 de julho de 2013

uma aula pública - uma conversa possível

à minha frente, um professor (um megafone, um guarda-chuva preto, uma prefeitura de uma cidade imensa, cartazes) nos convence da importância do devaneio. Afirma, convicto, que uma pessoa não pode estar todo o tempo colada na realidade, nas coisas sérias da vida. "Uma pessoa que está colada na vida o tempo todo enlouquece". Daí parte para descrever devaneios possíveis nos ônibus lotados, devaneios capazes de, por instantes e sem feridos, explodir o aperto e a falta de sentido.

abaixo de mim, um interlocutor (uma cadeira de plástico, uma garafa de plástico de cocacola-600-ml cheia de cachaça, umas pessoas sentadas no chão) não se convence. "Amigão - como é nome dele? Alguém sabe o nome dele? - ô, professor! O senhor vai ficar aí falando poesia? Quando o senhor vai falar de casa, de comida, de alguma coisa que faça a gente ser humano?". Devem ter sido as noites na rua que o colaram na vida desse tal jeito que não desgruda mais.



Como faz, Galeano, presse moço também ter direito de descolar os pés e os sonhos do chão?

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Da varanda

Daqui a um pouco de tempo, alguém vai olhar da varanda, sentado, e verá um muro. Talvez um portão.
Se houver varanda. E se houver onde sentar na varanda.

Daqui a um pouco mais de tempo, alguém vai olhar da sacada do apartamento em cima da antiga varanda, sentado, e verá, de cima pra baixo, a árvore ali da frente, a copa larga, velha, abrigo.
Se houver onde sentar na sacada. E se houver a árvore.

Daqui a um pouco mais de tempo, alguém, indo fechar a porta e a cortina da sacada do apartamento em cima da antiga varanda, porque em frente haverá outro prédio e não fica bem uma pessoa ver dentro do apartamento da outra, vai olhar de trás da porta, pelo meio da cortina, da sacada do apartamento em cima da antiga varanda, e não verá nada.

Os olhos que moraram naquela antiga varanda, sentados, namorando a rua, viram muito, viram tudo, viram a vida. É de uma responsabilidade inassumível sentar e olhar daquela varanda. E ver o jardim que criança não pode mexer, o pote de margarina de dar água pra passarinho, o balanço improvisado e o pote de margarina de pintar o muro de cor de água, de cor de muro. E ver as rosas. (Haverá rosas? Haverá quem veja as rosas?) E ver os vizinhos mais irmãos que os irmãos e as casas descascando as tintas das paredes, as folhas e flores e os barulhos dos carros. As folhas caindo pra alguém não varrer hoje que o sol está forte e, afinal, já lavaram com água o quintal de cimento. E ver o sol forte alegrando os passarinhos. E ver o sol se pôr, a vida começar e terminar. 

Os olhos que moraram naquela antiga varanda, sentados, namoraram a vida. E viram, cheiraram, escutaram, perceberam, silenciaram que a vida... isso tudo que se viu daquela varanda e que daqui a um pouco de tempo não se verá... é coisa tão pequena e tão grande. Tão muito e tão pouco. É coisa de se olhar por uma vida toda pra entender.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Sobre o que o filme do Marighella mexeu em mim, sobre sair, sobre nosso jeito de viver, sobre descer a Augusta chorando, sobre fé

"Parece cada vez mais forte a ideia de sair. Nem que seja só pra ter a possibilidade de imaginar outro jeito de viver em que eu consiga ter fé"

terça-feira, 31 de julho de 2012

Lagartixa

Quando um ser humano que faz parte das nossas memórias, ou mais até, que guarda em sua existência mesma pedaços preciosos de memória... quando esse alguém "acaba", isso cria vontade de silêncio, papel e caneta. E faz desejar uma capacidade de guardar tudotudotudo numa memória infinita. Que não temos. E a gente perde. Perde a pessoa, perda uma parte da vida, que vai com ela. E ganha uma sensibilidade imensa para a vida que está e para a memória que estamos construindo todo dia.

Dizendo tchau com água-de-olhos e silêncio, escrevi isso, tia. Ó:

"A memória mora nos espaços, mas não prescinde das pessoas porque precisa da troca para manter-se viva.

A memória dá vida às pessoas que dão vida à memória que dá vida.

A memória mora na casa-de-vó, na cristaleira, nas palavras "alegria de viver" que nós trocamos, na louça lavada perfeita secando no sol - primeiro os copos! - mas vive mesmo no cheiro amargo-dooooce de café, no som doooce-amargo da voz que a gente sente/escuta mesmo que já não haja.
 
A memória dorme. E acorda pra viver diferente de novo. E de novo. E se despedaça. E de cada pedaço nascem memórias novas. Igual lagartixa."

Um pouquinho da memória que compartilhamos, o que coube, vive e se mexe aqui dentro de mim, tia. E, aliás, vai rodar comigo por aí, porque, você sabe e dizia: eu tenho rodinhas nos pés.

Perdido no caderninho vermelho...

... não me lembro mais de onde tirei... mas vou compartilhar assim mesmo:

"Tristeza não é desalento da alma, é um duende que ataca ao encontrar aberta a porta do desgostar de si mesmo. O remédio é recolher-se no silêncio e desamarrar um por um os cadarços do egoísmo até os pés poderem andar na direção do outro"

(Frei Betto)