terça-feira, 31 de julho de 2012

Perdido no caderninho vermelho...

... não me lembro mais de onde tirei... mas vou compartilhar assim mesmo:

"Tristeza não é desalento da alma, é um duende que ataca ao encontrar aberta a porta do desgostar de si mesmo. O remédio é recolher-se no silêncio e desamarrar um por um os cadarços do egoísmo até os pés poderem andar na direção do outro"

(Frei Betto)

domingo, 8 de julho de 2012

Leitura em voz alta destes dias

Penso que leituras só fazem verdadeiro sentido no momento exato. Especialmente aquelas em que as palavras trazem poesia. Ontem, hoje e os amanhãs imediatos deram sentido pleno à leitura em voz alta disso:

"Há mágoas íntimas que não sabemos distinguir por o que contêm de sutil e de infiltrado, se são da alma ou do corpo, se são o mal-estar de se estar sentindoa futilidade da vida, se são a má disposição que vem de qualquer abismos orgânico - estômago, fígado ou cérebro. quantas vezes se me tolda a consciência vulgar de mim mesmo, num sentimento torvo de estagnação inquieta! Quantas vezes me dói existir, numa náusea a tal ponto incerta que não sei distinguir se é um tédio, se um prenúncio de vômito! Quantas vezes...

Minha alma está hoje triste até ao corpo. Todo eu me dôo, memória, olhos e braços. Há como que um reumatismo em tudo quanto sou. Não me influi no ser a clareza límpida do dia, céu de grande ar puro, maré alta parada de luz difusa. Não me abranda nada o leve sopro fresco, outonal como se o estilo não esquecesse, com que o ar tem personalidade. Nada me é nada. Estou triste, mas não com uma tristeza definida, nem sequer com uma tristeza indefinida. Estu triste ali fora, na rua juncada de caixotes.

Estas expressões não traduzem exatamente o que sinto porque sem dúvida nada pode traduzir exatamente o que alguém sente. Mas de algum modo tento dar a impressão do que sinto, mistura de várias espécies de eu e da rua alheia, que, porque a vejo, também, de um modo íntimo que não sei analisar, me pertence, faz parte de mim.

Quisera viver diverso em países distantes. Quisera morrer outro entre bandeiras desconhecidas. Quisera ser aclamado imperador em outras eras, melhores que hoje porque não são de hoje, vistas em islumbre e colorido, inéditas a esfinges. Quisera tudo quanto pode tornar ridículo o que sou, e porque torna ridículo o que sou. Quisera, quisera... Mas há sempre o sol quando o sol brilha e a noite quando a noite chega. Há sempre a mágoa quando a mágoa nos dói e o sonho quando o sonho nos embala. Há sempre o que há, nunca o que deveria haver, não por ser melhor ou por ser pior, mas por ser outro. Há sempre...

Na rua cheia de caixotes vão os carregadores limpando a rua. Um a um, com risos e ditos, vão pondo os caixotes nas carroças. Do alto da minha janela do escritório eu os vou vendo, com olhos tardos que as pálpebras estão dormindo. E qualquer coisa de sutil, de incompreensível liga o que sinto aos fretes que estou vendo fazer, qualquer sensação desconhecida faz caixote de todo esse meu tédio, ou angústia, ou náusea, e o ergue, em ombros de quem chalaceia alto, para uma carroça que não está aqui. E a luz do dia, serena como sempre, luz obliquamente, porque a rua é estreita, sobre onde estão erguendo os caixotes - não sobre os caixotes , que estão na sombra, mas sobre o ângulo lá ao fim onde os moços de fretes estão a fazer não fazer nada, indeterminadamente."

Fernando Pessoa em Livro do Desassossego

domingo, 13 de maio de 2012

Sobre a descrença no eterno...

Se eu quero um amor de vida inteira?
Quero a vida, ela em si, ela toda, ela inteira

Se eu quero alguém com quem compartilhar as projeções
e os planos-sonhos-dores de amanhã?
Quero alguém pra viver comigo um sincero-hoje sem frustrações
com quem compartilhar o sorriso da próxima manhã.

Se é o longe que planejo
É o perto imediato que vejo
e vivo
           sinto
                    modifico
                                   choro
E sinto ser todo meu nesse momento-verdade
Que é mais doce e longo que a projeção de uma eternidade.

Misturebas do caderninho vermelho - sobre a solidão, as cidades, a poesia e a revolução

"A mais insignificante partícula de vida tem mais valor do que tudo que escrevi" (Maiakovski)

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"Essa coisa de nos sentirmos profundamente sozinhos será essência humana ou circunstância social"

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"Eles são muito revolucionários pra fazer qualquer coisa" (Juliano Gentille)

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"As cidades nos esmagam? Elas são sujeitos do processo ou sua representação? Lidar com a cidade é lidar com o nosso jeito-de-viver"

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"A liberdade é vivencial, não é teórica. A liberdade ou se vive ou mal se entende dela" (Luiz Telles)

Escritos curtos de viagem (2)

"Experiência, vivência - não se transmite.

o que não se transmite?
- há coisas que só se pode experienciar, não se pode transmitir.
- haverá coisas que, ao contrário, só se pode transmitir, não se pode experienciar?
o que, então, se transmite?"

(São Paulo - Montevideo)

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"No dejes de soñar, pero sueña de cara a la vida"

(Montevideo - sede do grupo El Galpon - frase de Athualpa del Cioppo)

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"Pra frio na alma não há cachecol"
(Montevideo - São Paulo)

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"Encontrar-se com a falta de sentido não é problema. É problema seguir nela"
(Franca)



Sobre o raro

O amor fica mais raro quanto mais nos tornamos acúmulo de coisas. Quanto mais acumulamos experiências, expectativas, frustrações, lembranças, dores... maior o muro a ser quebrado para nos colocarmos plenamente frágeis à disposição do encontro com o outro. Plenamente expostos. Verdadeiros. Apaixonantes, apaixonados. Entregues.

Somos isso poucas vezes.

terça-feira, 27 de março de 2012

Escritos curtos de viagem

"Pareceu-lhe tão inútil explicar as coisas pra fora que cogitou ficar uma semana sem falar. Um ano. Então, o telefone tocou, chamando para uma reunião."

"As máquinas, imensas, pareciam esqueletos de dinossauro. O formato, a cor. Mas um esqueleto de dinossauro teria mais sentimento."