quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Da falta de sentido e dos sentidos que a gente deixa pelo caminho

De volta às aulas. Terminada a segunda semana de aulas, já concluí que carrego um peso até o fim de 2008. Um peso cada vez mais pesado. O peso de assumir uma experiência que já não faz mais sentido, não acrescenta, não é desejada. E de compartilhar essa expriência com quem não se escolheu.

Terminada a segunda semana, encontro os mesmo rostos, os mesmo discursos, as mesmas limitações. Pra ser respeitado, afinal, é preciso ser limitador. Encontro, de novo, coisas que não consigo mudar, mas que sei que não quero pra mim do jeito que são. Coisas que passam por mim, machucando um pouquinho, mas só passam, porque não fazem parte, porque são só superfície.

Terminada a segunda semana me deparo com a minha covardia. Continuar pra quê? Sem resposta. E por que parar? Sem resposta. Pelo quê trocar isso? Sem resposta.

No entanto, não está muito distante no passado o mês de novembro do ano de 2007, mês em que abandonei pelo menos três oficinas culturais (palhaçaria, teatro de rua e acrobacia) no meio, uma delas ministrada por uma das pessoas mais encantadoras que já conheci. Abandonei com alívio, porque era uma preocupação acumulada. Abandonei com facilidade.

Agora me pergunto: como descartamos com tal displicência tantos sentidos pelo caminho e aceitamos, com a mesmíssima dispicência, viver num mar de falta deles?

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Anjos de liquidação

Dia frio e chato, chuva fina que não acaba, nem começa direito, mas faz a gente gastar dinheiro com guarda-chuva rasgado e depois se arrepender. Eu, meu novo varal de chão, meu arquivo vermelho, minha xícara verde fosforecente (pra economizar copinhos de plástico) e o guarda-chuva rasgado - que o moço garantiu que dura 10 anos - estávamos voltando pra casa, depois de quase ficarmos surdos com aquelas coisinhas que eles vendem na 25 de março, que parecem dizer "papai, a titia, papai", sabe? Então. Voltávamos exaustos. Eu incapaz de carregá-los confortavelmente. Foi quando encontramos, no caminho, dois anjos muito alegres. Em frente ao stand de sobremesas do Mac Donalds, eles cantavam, numa espécie de coral divino, anunciando: "oh, happy day... oh, happy day... oh, happy day... oh, happy day... é a liquidação... no Shopping Light".

Eu poderia fazer aqui uma crônica a respeito do porquê os anjos vêm do céu com tantos talentos e dons pra se venderem por tão pouco ou ainda poderia analisar a apropriação de ícones artísticos realizada pela propaganda. Mas eu não vou. Varal de chão é um troço pesado e meu braço tá cansado pra digitar.

domingo, 30 de dezembro de 2007

Uma história quase de Natal

Dia 26, por volta das 16h.

Ônibus. Ar condicionado quebrado.

Voz de mulher em alto e bom som ao telefone.

- Vocês já ligaram na Funerária Americana?
(pausa breve)
- Ai, meu Jesus Cristo!
(nova pausa breve)
- Quando eu soube, o ... (nome de homem, impossível ouvir) já tinha saído, o jeito foi pegar o ônibus mesmo...
(pausa brevíssima)
- Eu tô indo pra sua casa tá?
(pausa maior)
- Da ... (nome de mulher, impossível lembrar) ? Sei, sei chegar, sim. Tá bom.

terça-feira, 25 de dezembro de 2007

Sobre quadros e quebra-cabeças

Tudo igual. Tudo junto. Sem pares opostos, sem dicotomia, sem tese + antístese que vira síntese. Ou com tudo isso, desde que admitamos que a tese, a antítese, a síntese, os pares opostos, os elementos dicotômicos e tudo mais que você possa imaginar, são a mesma coisa. Não feitos da mesma coisa, não partes da mesma coisa, só a mesma coisa. Um grande montão de mesma coisa forçadamente separada por contornos-limites, contornos-razão-de-sofrimento, contornos-desarmonia.

(Um monte de gente famosa já disse isso, de um monte de jeitos, inclusive o moço que dizem ter nascido hoje - só que há muitos anos - e que não é o Papai Noel.)

O que me pergunto é: a partir de quando a vida deixa de ser uma pintura linda e harmoniosa pra se tornar um quebra-cabeças de peças que se trombam sem se encaixarem? Desde então, as individualidades gritam, isoladas, nunca capazes de complementar. Puramente individuais, sem criarem nada, sem comporem nada, sem serem nada. Impedidas de ser pelos limites que impuseram a elas mesmas. Ai, como o ser humano é bobo!

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

Para o que sorrir?

Hoje, andando pro trabalho, passei por dois cachorrinhos e sorri. Foi inevitável. A gente sempre sorri pra cachorros, né? Eu sempre.

Aí fiquei pensando que não é comum sorrrir pra pessoas desconhecidas com a mesma facilidade com que sorrimos pra cachorros desconhecidos. Talvez porque as pessoas não nos pareçam tão puras quanto os cachorros. Talvez porque tenhamos nos cansado das pessoas.


Nada, absolutamente nada, contra cachorros, mas quando nos cansarmos também deles, pra que animais vamos sorrir?

Nada contra os outros animais, mas quando nos cansarmos também deles, para o que vamos sorrir?

quarta-feira, 28 de novembro de 2007

Notas do parto


Ontem, nasceu a Wawa.



Sabia pouco dela. Descobri pouco ontem. Era muito movimento para uma palhaça recém-nascida. Então, ela acabou se empolgando e se perdendendo.



Gosto dela, mas por enquanto sou só eu mesmo. Acho que meus amigos se assutaram. O entregador de pizza nem se fala.



A Wawa nasceu no dia dos meus 21 anos. De propósito, de presente. Minha emancipação. Uma nova Juli...



Tudo isso.

terça-feira, 20 de novembro de 2007

Do amor, da memória e dessas coisas que não se explica

- Amar é muito diferente de lembrar de amar. Ser é muito diferente de lembrar de ser e de pretender ser.

A gente é um monte e, por isso mesmo, transforma as outras pessoas em um monte. Eu sou um pra mim, outro pra cada pessoa que me conhece, outro nas minhas lembranças, outro nas lembranças de cada pessoa que me conheceu, outro pra quem me ama, outro quando amo alguém.

Amar era pra ser só ser, só um estado, um momento. Momento que se desdobra ou não em muitos outros, mas que só é quando, quanto e enquanto é. Um instante, um presente.

Um presente? Bem, em tempos de processificar tudo, não há presente – nome tão bonito esse. Não há. Não mais. Não há ser. Há, no máximo, o ter sido e o vir a ser, ambos indefinidos, perdidos num espaço-tempo inexistente, imaginário, num tempo-espaço-fronteir-alinha-imaginária-do-Equador. Tempo-espaço-fuso-horário. Longe, perto, lá, ali. Que não dá pra tocar, nem pra sentir. Perdido num eu que era outro, embora eu insista em vê-lo como esse mesmo eu evoluindo... indo... endo... ando. Processo. Outro eu, um bicho estranho que já renovou todas as suas células tantas vezes até o momento lembrado e as renovará outras tantas até o momento projeto. Mas que insiste em ser o mesmo. E, por isso, no fim, cada eu só existirá no depois, no lembrar. Porque perdemos o presente lembrando e projetando. Processificando. Transformando tudo num processo interminável e chato de um ser que não pode ser porque se acha melhor enquanto é processo.